Livros e referências

Bruxas: a força invencível das mulheres

Leia se você está cansada de medir suas escolhas pela expectativa do que uma mulher “deveria” ser.

Por Tais CaldasPublicado em 29 de setembro de 2026Atualizado em 29 de setembro de 20265 min de leitura

Mulher madura pesquisando livros e elementos naturais à mesa, em referência à história das bruxas e à autonomia feminina.

A palavra bruxa carrega séculos de tentativa de silenciamento. Chamar assim uma mulher era, antes de tudo, marcar aquela que sabia algo, que curava, que vivia sozinha, que não obedecia. O incômodo nunca foi com magia — foi com autonomia.

O que estava sendo punido

Mulheres que dominavam saberes sobre o corpo, o parto, as ervas e os ciclos ocupavam um lugar de autoridade. Esse lugar foi disputado e depois demonizado. O que sobrou no imaginário foi a caricatura; o que ficou escondido foi o conhecimento.

A herança que chega até hoje

A punição mudou de forma, mas o mecanismo é reconhecível. A mulher que fala com firmeza é chamada de difícil. A que estabelece limites, de fria. A que decide sozinha, de radical. Os adjetivos servem para o mesmo fim de sempre: fazer recuar.

Retomar a palavra

Quando uma mulher deixa de temer o rótulo, algo se reorganiza. Ela para de pedir licença para existir, revê o que aceita e passa a escolher com quem gasta a própria energia. Não é rebeldia — é o fim de um contrato antigo em que ela aparecia por último.

Força não é isolamento

A imagem da bruxa solitária é parte da história contada por quem tinha interesse em separar mulheres. Na prática, o que sustenta esse processo é o oposto: círculo, escuta, testemunho. É por isso que trabalho tanto com grupos — o que uma mulher não consegue nomear sozinha, outra nomeia, e a segunda se reconhece.

O que Mona Chollet acrescenta a essa conversa

Um dos pontos mais interessantes de Bruxas: A Força Invencível das Mulheres, de Mona Chollet, é que a autora não trata a “bruxa” apenas como personagem histórica. Ela usa essa figura para observar mulheres que continuam sendo vistas com desconfiança quando vivem fora das expectativas tradicionais.

Três figuras ganham destaque.

A mulher que não quer ser mãe

Ainda existe uma expectativa social de que a maternidade seja destino natural e universal de toda mulher.

Para algumas, é um desejo profundo. Para outras, não.

O problema começa quando uma escolha legítima é transformada em falha moral: egoísmo, frieza, imaturidade ou incompletude.

A leitura de Chollet convida a separar duas perguntas:

“Eu quero isso?” de “Esperam que eu queira isso?”

Essa diferença é autoconhecimento.

A mulher que vive sozinha

A mulher que escolhe morar só, permanecer solteira ou organizar sua vida sem um parceiro ainda pode ser tratada como se estivesse “esperando a vida começar”.

Mas autonomia relacional não significa isolamento.

Viver sozinha pode ser escolha, fase, circunstância ou experiência de liberdade. E estar acompanhada também não garante vínculo, pertencimento ou intimidade.

A pergunta não é “há alguém ao seu lado?”.

É: “A vida que você construiu tem espaço para você?”

A mulher que envelhece

Chollet também discute o desconforto cultural diante da mulher que envelhece e continua visível, desejante, criativa e autônoma.

Em uma cultura que frequentemente associa valor feminino à juventude, envelhecer pode ser vivido como perda de lugar.

Mas pode também abrir outra pergunta:

“O que se torna possível quando eu já não quero organizar minha vida para parecer desejável aos olhos de todo mundo?”

Essa é uma questão especialmente potente depois dos 40.

A bruxa contemporânea não precisa fazer magia

Talvez a “bruxa” contemporânea seja apenas a mulher que:

  • escolhe;
  • muda de ideia;
  • envelhece;
  • não pede desculpas por existir;
  • não transforma casamento ou maternidade em medida de valor;
  • sustenta a própria companhia;
  • decide não caber.

O símbolo não precisa ser tomado literalmente.

Ele pode funcionar como uma pergunta:

que parte de você foi considerada inconveniente apenas porque era livre?

É uma conversa próxima da de Indomável e de As boas meninas também se cansam.

Esta é uma leitura de obra publicada, não uma afirmação clínica, e não substitui avaliação ou cuidado profissional quando necessário.

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