Limites, relações e posicionamento
Amor e solidão: o que A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão nos ensina sobre não se abandonar
Leia se você anda triste, se sentindo sozinha ou percebe que está se abandonando para amar.
Por Tais CaldasPublicado em 6 de setembro de 2026Atualizado em 6 de setembro de 20265 min de leitura

Uma das fantasias mais persistentes sobre o amor é a de que existe alguém capaz de resolver a sensação de falta que carregamos.
A metade da laranja.
A pessoa certa.
Alguém que finalmente nos fará sentir completas.
Em A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão, a psicanalista Ana Suy propõe uma reflexão menos romântica — e, por isso mesmo, muito fértil: amor e solidão não são necessariamente opostos.
A própria apresentação oficial do livro destaca a ideia de que a solidão está presente no interior do amor.
Amar não elimina a experiência de ser uma pessoa separada
Mesmo em uma relação profunda, ninguém entra completamente na experiência do outro.
Há desejos que não serão compreendidos do mesmo modo.
Medos que você precisará nomear.
Escolhas que continuarão sendo suas.
Perdas que ninguém poderá sentir exatamente por você.
Isso não torna o amor insuficiente. Torna-o humano.
Quando a expectativa de completude vira autoabandono
O problema aparece quando esperamos que o relacionamento responda por tarefas internas que são nossas.
“Se ele me amar, vou me sentir segura.”
“Se ela me escolher, finalmente vou saber que tenho valor.”
“Se essa relação der certo, minha vida fará sentido.”
Quando o outro passa a ser responsável por garantir nossa identidade, qualquer distância pode parecer ameaça.
E então podemos começar a nos adaptar demais:
- calar necessidades;
- abandonar amigos;
- abrir mão de projetos;
- aceitar comportamentos que machucam;
- vigiar constantemente o vínculo;
- tentar ser indispensável.
A relação permanece — e você vai desaparecendo dentro dela.
Solidão não é a mesma coisa que abandono
Há uma solidão dolorosa, ligada à falta de vínculo, rejeição e isolamento.
Mas há também uma experiência inevitável de interioridade: existe uma parte da vida que ninguém pode viver no nosso lugar.
Aprender a estar consigo não significa desistir do amor. Pode significar chegar ao amor com menos exigência de salvação.
Relacionamentos mais inteiros são feitos por pessoas inteiras?
Não no sentido de pessoas “resolvidas”, perfeitas ou autossuficientes.
Somos interdependentes. Precisamos de vínculo.
Mas uma relação ganha espaço para respirar quando cada pessoa pode existir:
- com interesses próprios;
- com amizades;
- com silêncio;
- com discordâncias;
- com limites;
- com responsabilidade sobre as próprias escolhas.
A pergunta talvez não seja “como não sentir solidão?”
Talvez seja:
“Como não me abandonar quando a solidão aparece?”
Você pode sentir saudade sem voltar para uma relação que lhe fazia mal.
Pode sentir medo e ainda colocar um limite.
Pode amar alguém sem transformar amor em submissão.
Pode terminar uma relação e continuar inteira, mesmo atravessando dor.
O que bell hooks acrescenta: afinal, o que estamos chamando de amor?
Este artigo parte de Ana Suy para pensar amor e solidão. Tudo sobre o amor, de bell hooks, acrescenta uma pergunta diferente e complementar: o que estamos chamando de amor?
Hooks critica uma cultura que usa a palavra amor para relações nas quais também existem dominação, mentira, controle e negligência.
Ela propõe pensar amor não apenas como sentimento, mas como prática.
Amor não é apenas intensidade
Uma relação pode ser intensa e ainda assim ser ruim.
Pode haver:
- desejo;
- saudade;
- química;
- apego;
- medo de perder;
- reconciliações dramáticas.
Nada disso, sozinho, prova que exista uma relação amorosa saudável.
Uma pergunta mais útil é:
“O modo como nos relacionamos produz respeito, verdade, cuidado, responsabilidade e espaço para crescimento?”
Cuidado sem autoabandono
Muitas mulheres aprendem que amar é antecipar necessidades, manter a paz, sustentar o clima emocional da casa e compreender tudo.
Cuidar faz parte do amor.
Mas cuidado unilateral e permanente pode virar autoabandono — o que também aparece na dependência emocional.
Você pode apoiar alguém sem assumir toda a responsabilidade por sua vida.
Pode ser empática sem tolerar desrespeito.
Pode amar e ainda assim dizer: “Isso eu não aceito.”
Amor e autonomia
Um vínculo não precisa diminuir duas pessoas para transformá-las em uma só.
Amar alguém não elimina:
- projetos próprios;
- amizades;
- privacidade;
- interesses;
- divergências;
- crescimento individual.
Autonomia não ameaça necessariamente o vínculo.
Em relações maduras, pode fortalecê-lo.
Verdade
Relacionamentos que dependem de uma pessoa esconder sistematicamente o que sente têm um problema de estrutura.
Talvez você evite falar porque teme:
- conflito;
- abandono;
- julgamento;
- indiferença;
- retaliação.
Nesse caso, a questão não é apenas “como me comunicar melhor?”.
Também é: “Existe espaço nesta relação para que eu seja verdadeira?”
Amor não é um projeto que uma pessoa sustenta sozinha
Há relações que terminam emocionalmente muito antes de terminarem formalmente.
Uma pessoa segue tentando salvar, conversar, consertar e explicar.
Hooks nos ajuda a lembrar que amor exige participação.
Compromisso não é permanecer a qualquer custo.
É existir uma escolha compartilhada de cuidar do vínculo.
Este é um conteúdo educativo, com leituras de obras publicadas, e não substitui avaliação ou cuidado profissional quando necessário.
Referência consultada
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